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14. Novembro 2019

REPORT CHECK POINT | MUDANÇAS DE PARADIGMA: MODELOS DE NEGÓCIO DO FUTURO

-  ModaLisboa Collective,  Check Point,  Sustentabilidade

REPORT CHECK POINT | MUDANÇAS DE PARADIGMA: MODELOS DE NEGÓCIO DO FUTURO

O segundo dia do Check Point da ModaLisboa Collective, organizado em parceria com a plataforma Catalyst Future Fashion e o Global Fashion Exchange, foi dedicado à análise de modelos de negócio portugueses. Com a moderação de Patrick Duffy, vários profissionais que estão a impulsionar a mudança refletiram sobre a indústria da Moda atual.

Maria Guedes é a autora do Stylista, uma plataforma de moda e lifestyle que conta já com 10 anos de existência. A sua paixão por construção, materiais e corte culminou com o seu mais recente projeto, a marca de nome homónimo que quer explorar o caminho para o Design responsável.

António Vasconcelos é um dos fundadores da organização The Natural Step. Com um background em business strategy, o seu trabalho destaca-se pela colaboração com líderes de todas as partes do mundo, com o intuito de transformar e fazer evoluir.

Joana Cunha é a social impact entrepreneur que está por trás da Fair Bazaar, um marketplace criado em 2017, que conecta consumidores conscientes com marcas e produtos sustentáveis. Fair Bazaar conta atualmente com 50 marcas na sua rede e vende para todo o mundo.

Ana Rita Clara é apresentadora de televisão e fundadora da organização global para o impacto social, Change It, dedicada ao social exchange e à promoção dos acontecimentos da área, encontrando-se alinhada com os 17 Sustainable Development Goals da ONU.

Daniel Mota Pinto é diretor de estratégia e business development da Scoop, empresa de confeção na área do desporto. O seu foco é a produção ética e responsável, assim como a criação de parcerias humanitárias, em nome de um objetivo comum e global.

Apesar da ligação por um mesmo propósito - o game-changing por um mundo melhor - a roundtable permitiu-nos receber diferentes insights de cada um dos convidados, sendo que foram abordados temas como a inovação, ADN de marca, o consumidor e o papel dos media. A conversa começou com uma contextualização do que se passa no mundo neste momento, e como é que a indústria da Moda se relaciona com o tempo do agora.

António Vasconcelos explicou-nos que o primeiro passo é a compreensão clara do que é a sustentabilidade: não basta apontar o dedo a um determinado material (plástico) e elevar a suposta solução (papel). As SDG’s (Sustainable Development Goals) das Nações Unidas constituem uma bússola no encontro da definição, no entanto o complemento de políticas globais é necessário. Quando falamos de Moda, é preciso antecipar para nos mantermos saudáveis: a indústria apenas representa uma febre sintomática de um problema muito maior, que só é possível de resolver se compreendermos a falta de limites e responsabilidade na maneira como temos produzido e consumido Moda. Em suma, é preciso perceber aquilo de que estamos a falar, para agir corretamente.

Quando falamos de metas a atingir, seja qual for a escala em que operamos, Maria Guedes e Daniel Pinto provaram-nos que tudo é possível, e que Portugal precisa dos seus small players.

Em reação à oferta de má qualidade que se encontra por toda a parte, Maria Guedes quis criar uma marca que elevasse valores outrora dominantes, como a simplicidade e a durabilidade. A escala reduzida do seu negócio permite-lhe produzir em pequenas quantidades e manter um contacto mais próximo e pessoal com a produção que por vezes é feita com materiais excedentes das fábricas.

Daniel Pinto explicou que, no caso da Scoop, o maior foco são as pessoas e o respeito e valorização pelo seu trabalho e qualidade de vida, dentro e fora da esfera profissional. Entre 2000 e 2016, a empresa arrecadou as certificações ligadas ao ambiente, qualidade e responsabilidade social, que se revelaram um grande investimento para uma empresa de apenas 70 trabalhadores. Apesar das suas dimensões, rapidamente perceberam que o seu impacto poderia aumentar através dos seus clientes. E assim nasceu uma colaboração com a PVH Group (Tommy Hilfiger), que lhes permitiu poupar três milhões de litros de água, através do reaproveitamento de deadstock para uma coleção cápsula de loungewear.

Passando para a esfera do consumidor, Joana Cunha revelou-nos que ela mesma foi o seu primeiro cliente: a Fair Bazaar nasceu da vontade que tinha de mudar os seus hábitos de consumo e de oferecer ferramentas de exposição e comunicação a marcas sustentáveis. O primeiro passo foi abrir loja física em Lisboa e mais tarde um marketplace que permitisse um alcance mundial. Os seus clientes começaram por ser maioritariamente estrangeiros, mas Joana orgulha-se de ver uma crescente afluência de consumidores portugueses, graças à mudança de hábitos e à comunicação dos media.

Falando do papel importante dos media na difusão de informação, Ana Rita Clara é um exemplo de como o trabalho de comunicação pode ser feito dentro e fora de portas. Sustentabilidade é um dos temas mais recorrentes do seu programa de televisão, “Faz Sentido”, mas a necessidade de fazer acontecer fora da televisão e estar mais perto das pessoas e das suas histórias, levou-a a fundar, em 2014, a organização Change It. Ana Rita move-se pela ideia de que todos somos change makers, e de que podemos não só mudar as nossas vidas, mas também inspirar a mudança nos outros, e a Change it quer continuar a participar ativamente nesse movimento, através da descoberta e partilha de projetos disruptivos e de networking.

Quando questionados sobre qual será o derradeiro impulsionador do futuro responsável, Joana Cunha e Daniel Pinto salientaram que acreditam que a educação é o maior elevador social que temos: é preciso educar não só as gerações correntes, mas também aquelas que vão operar o futuro, para que a evolução não pare de acontecer. Patrick Duffy reforçou que também os profissionais do design e manufatura precisam estar expostos à reeducação, para que possam repensar o seu trabalho em função de novas e futuras realidades.

Para Maria Guedes e Ana Rita Clara, a consciencialização é uma ferramenta igualmente poderosa: aqueles que conseguem chegar a grandes massas têm a responsabilidade de passar a mensagem continuamente, até que esta esteja enraizada na mente todos. Só assim poderemos transformar esse awareness em ações concretas feitas por todos e para todos.

Concluímos este roundtable com um statement feito por António Vasconcelos: “há um grande momentum a formar-se e por isso é muito importante começar a agir o quanto antes; temos de parar de colecionar informação, porque o ato de analisar é sinónimo de paralisia. Comecemos hoje mesmo com ações concretas e comuniquemos essas mesmas acções, para que mais e mais pessoas saltem para o barco. Já existem mais que provas suficientes de que existe um problema e é preciso resolvê-lo, colocando os pés em 2030 e olhando para o presente. É preciso honrar eventos como esta conversa, com a devida prática; disrupção, inovação e transformação radical são as chaves do futuro.”