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11. Maio 2020

O SANGUE NOVO DE ARTUR DIAS — OPIAR

-  Sangue Novo,  ModaLisboa

O SANGUE NOVO DE ARTUR DIAS — OPIAR

Artur Dias e a sua Opiar já apresentaram cinco coleções na ModaLisboa. E este é um grande número para quem só tem 24 anos. Mas o que é que são números num universo em constante mutação?

Não falemos em números, então. Falemos em factos — esses que não mudam do dia para a noite. Artur cresceu numa pequena aldeia de Vila do Conde, estudou Artes na Escola Artística Soares dos Reis, e Design de Moda na Modatex, no Porto. Apresentou pela primeira vez no Sangue Novo na ModaLisboa N.50 e voltou na estação seguinte, Multiplex. Foi um dos seis jovens designers selecionados para a fase seguinte do concurso e, em Insight, viamo-lo de novo. “La Petite Mort”, a sua coleção de FW19/20, garantiu-lhe passagem para a plataforma de experimentação Workstation. Até porque experimentação é o terreno em que Artur Dias se move mais livremente. Desenhar fora das linhas, criar em liberdade, mostrar sem rédeas. A experiência performativa está-lhe na pele, está-lhe nas peças e, como podem ler a seguir, também lhe está nas palavras.

O que te atraiu na Moda?
Durante o meu crescimento sempre tive bastante interesse em exprimir-me visualmente, pela dança, desenhos ou mesmo através da Moda, na forma como me vestia, sendo que foi uma expansão da minha personalidade e essência que me acompanhou desde sempre. Lembro-me perfeitamente de um dia, enquanto ensaiava para uma peça de dança contemporânea, pensar que além de poder criar a performance, podia criar os próprios figurinos! E foi aí que o meu interesse pela área aumentou.

E isso é o mesmo que te atrai hoje? 
Não necessariamente. Ou, na verdade, sim, mas não da mesma forma! As minhas primeiras coleções eram uma ode à criatividade e fantasia cénica do meu universo. Criava sempre com o intuito de fazer com que as outras pessoas entrassem dentro do universo pelo qual desenvolvi a coleção, como se de uma experiência virtual se tratasse, como um jogo, pensemos! Criava figurinos da história que eu tinha pensado, com os princípios-base do vestuário eximiamente planeados e de acabamentos de luxo, para que construísse a imagem imponente que eu sempre tanto almejei.

Porque é que resolveste candidatar-te ao concurso Sangue Novo?
O concurso Sangue Novo, desde que começamos a tirar o curso de Design de Moda, é-nos referido como “O Concurso” em Portugal. Aquele que muitos, como eu no início, pensavam impossível de alcançar. Creio que reúne uma seleção de designers nacionais, e eventualmente internacionais, cujas propostas tendem a surpreender e onde a criatividade se excede e pesa. Decidi candidatar-me com o principal objetivo de ter uma plataforma e propósito de apresentar as minhas propostas de auge criativo.

Quais eram as tuas expectativas? Sentes que foram atingidas?
Eram explorar o meu auge criativo, a minha fantasia e storytelling, e foram a oportunidade e situação perfeitas para o fazer. E sim, todas as minhas expectativas foram atingidas, com muito esforço, trabalho e dedicação.

O que é que significou para a tua marca participar no concurso?
Além de ter sido o primeiro passo enquanto experiência de desfile de Moda e toda a produção envolvida, foi também o meu primeiro passo como afirmação de identidade e cunho criativo. Foi a primeira porta para este universo.

Sentes que a mentoria no processo te deu ferramentas úteis para encarar o mercado?
Durante todo o processo enquanto concorrente do Sangue Novo, os meus objetivos eram muito claros e diretos, o que fez com que a minha mensagem material e conceptual de produto fosse sempre fácil de passar e interpretar para os júris. Creio que o mentoring dado se aplicou somente áquilo que era o evento e o momento, porque o concurso em si não encara o mercado da forma realista que ele é. O Sangue Novo é, a meu ver, uma cápsula criativa, importante no desenvolvimento de um designer que queira desenvolver conteúdo, mas que depois da sua conclusão é necessária uma avaliação realista do zeitgeist para poder continuar.

O que gostarias de ter sabido antes de te candidatares?
Não gostava de ter sabido nada, acho que o desconhecido faz parte da aventura e descoberta. Devemos ser nós a contar a nossa própria história e a tirar as nossas próprias conclusões.

Depois do Sangue Novo, ingressaste no projeto Workstation e, na última edição, foste um dos participantes do United Fashion Lisboa. Como é que a tua marca se transformou nesta evolução de plataformas?
A plataforma Workstation foi o oficializar de registo para o meu projeto. Lembro-me precisamente de ter acabado a participação do Sangue Novo e pensar que, se fosse para continuar, teria de existir agora uma adaptação à realidade, de forma a responder de forma sustentável às minhas necessidades e às do exterior. Foi também a partir da Workstation que obtive um estúdio, e que comecei a vender as minhas peças.

Sentes que foi um crescimento importante?
Foi definitivamente importante. Mais do que importante, necessário. O universo da fantasia e expoente criativo, se não é equilibrado com a realidade e as necessidades, é só um desperdício de tempo e  recursos. Já para não referir ilusório.

Quais foram os maiores desafios?
Da logística, aos preços, aos materiais e produção, existem sempre alguns entraves que dificultam o processo, especialmente quando se é um projeto independente como o meu em que trato de tudo sozinho. No entanto, é isso que no final do dia me dá prazer e me deixa feliz. Não trocaria por nada.

Como é que encaras a indústria e o sistema de Moda hoje, e qual sentes ser o teu papel dentro deles?
A Moda de hoje é um purgatório em disputa para lugares no inferno. Uma disputa consumista entre fast-fashion que desrespeita todo o labor e ambiente, ou um mercado de luxo intenso de peças de roupa overpriced que ninguém precisa na verdade. Existe uma percentagem no limbo que me insiro que está a fazer-se ver aos poucos. Um produto que é justo a todos os níveis e que só é feito na sua necessidade.

O que é que gostarias que fosse diferente, e o que é que gostarias de manter?
Gostaria que as pessoas decidissem arranjar as suas roupas antes de comprar outras, e pagar um pouco mais do que estão habituadas a comprar, porque além de durar mais tempo, não estão a desgastar todo um planeta, recursos humanos e materiais. Serem mais conscientes da pegada, simplesmente. E gostaria só de manter as mentalidades que já pensam assim e que respeitam essas mesmas questões.

Como é que vês o futuro da Moda de autor em Portugal?
Não vejo. Eu não penso mais do que o dia de amanhã, genuinamente. Crises como esta que estamos a passar agora provam o quão inútil é pensar e fazer demasiado. Tivemos de ser obrigados a viver um dia de cada vez para pôr estas questões em cima da mesa. Creio que vão sempre existir necessidades dos seres e identidades se reinventarem, portanto creio que o futuro é reinventar!

A ModaLisboa sempre foi um think tank para projetos diferentes, e quer interligar pessoas de backgrounds distintos. Na tua opinião, quais são, atualmente, os projetos e pessoas mais criativos em Portugal que deveríamos todos estar a seguir?
Cuscuz Design, desenvolve eyewear e acessórios exclusivamente de materiais sustentáveis. Fabula Stitches, que desenvolve vestuário sustentável com técnicas de estampagem naturais; e Carina Ferreira, que desenvolve um trabalho fotográfico de momentos do dia a dia como de uma catarse performativa se tratasse.

Esta entrevista a Artur Dias faz parte de uma série de conversas que debatem o impacto das últimas quatro edições da ModaLisboa | Lisboa Fashion Week. Só pensando o nosso percurso sabemos onde estamos hoje. Só sabendo onde estamos hoje poderemos construir o nosso amanhã.

Foto: © Ricardo Gomes