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11. Maio 2020

O SANGUE NOVO DE ARCHIE DICKENS

-  Sangue Novo,  ModaLisboa

O SANGUE NOVO DE ARCHIE DICKENS

Cresceu no campo, perto de Londres, e não é difícil encontrar estes dois mundos nas peças de Archie. Também não é difícil encontrar Portugal, que já se foi entranhando na identidade da marca porque também se foi entranhando na identidade do designer. Veio para cá porque “precisava de uma mudança, e as circunstâncias eram as certas”, e ainda bem que veio — melhor ainda ter ficado.

Foi na ModaLisboa Multiplex que apresentou a sua primeira coleção para o concurso Sangue Novo. Estávamos em outubro de 2018, falávamos da primavera de 2019, e Archie chamou-lhe “Forma de Vida”, em resposta à política britânica-europeia. Entretanto, o Reino Unido saiu da União Europeia, mas Archie Dickens não saiu da ModaLisboa. Na estação seguinte, e fase final do concurso Sangue Novo, sagrava-se vencedor do Prémio The Feeting Room e viu a sua coleção, “Fluxo”, à venda na concept store.

A marca, lançada em junho de 2018 depois do designer terminar o mestrado em Moda no The Royal College of Art (isto depois de um bacharelato em Têxteis pelo Chelsea College of Art), é um sonho de knitwear confecionado nos Anjos, em Lisboa. Depois do Sangue Novo, seguiu para a Workstation e foi um dos representantes portugueses no United Fashion Lisboa, e mesmo que o futuro ainda esteja por escrever, falámos com Archie em todos os tempos verbais.

O que é que te atraiu na Moda?
Sempre fui muito artístico, e cresci num ambiente criativo. Quando comecei a estudar na Central St. Martins, trabalhei em áreas muito diferentes da arte e design, e acabei por decidir especializar-me em Moda e Têxteis porque me davam um caminho palpável de visualizar o meu processo criativo e de criar algo de valor e usabilidade.

E esse caminho é o mesmo que te atrai hoje? Ou o que te desperta interesse foi-se alterando ao longo do tempo?
Hoje em dia estou mais interessado na forma como utilizamos processos artesanais. Estudei Têxteis e Design de Knitwear, e por isso o ofício e o processo acima de tudo. Estou na indústria (como estudante e, depois, enquanto marca) há quase seis anos e durante esse tempo vi o bom, o mau e o ainda pior em termos de comportamentos da indústria e da utilidade do que fazemos. Estou mesmo a tirar algum tempo agora para pensar em formas de avançar e também se a forma como eu trabalho enquanto designer e o que eu produzo é sustentável (emocionalmente e de outras formas). Mas fundamentalmente, o mesmo ainda se aplica agora — de forma um pouco egoísta, adoro transformar um conceito de papel para tecido, e depois a campanha é a cereja no topo do bolo.

Porque é que decidiste participar no concurso Sangue Novo?
Conheci o Sangue Novo através de amigos, e quis candidatar-me porque era um momento de tudo ou nada na minha carreira — não esperava mesmo ser aceite e desde então tem sido um turbilhão!

Quais eram as tuas expectativas do concurso? Sentes que foram concretizadas?
Em toda a honestidade, vindo de uma escola de Moda em Londres, a minha percepção de Semanas de Moda mais pequenas era enviesada. Nunca tinha ido à ModaLisboa antes, e tinha expectativas muito baixas do Sangue Novo — não podia estar mais enganado. Desde o momento em que tive a minha primeira reunião com o júri, entendi o profissionalismo e a curadoria brilhante que fazem da ModaLisboa uma Semana de Moda tão inesperada. Em todas as fases do processo, senti-me respeitado e motivado — e de repente também muito nervoso quando percebi que isto era mesmo a sério (e muito envergonhado por ter tirado conclusões tão precipitadas).

Tendo em conta tudo isso, o que é que significou para a tua marca participar na competição?
Para mim, o Sangue Novo significou tudo. Para a marca também. Foi o momento em que consegui livrar-me da falta de confiança que tinha no meu mestrado e realmente permitir que a minha imaginação se abrisse e fosse bem sucedida.

Sentiste que a mentoria durante o processo te deu ferramentas úteis para enfrentar o mercado de Moda?
Para mim, a mentoria foi maravilhosa. Foi incrível ser apresentado e poder conhecer o Miguel [Flor], a Cláudia [Barros] e o Alfredo [Orobio]  — o apoio deles tem significado que eu posso continuar a avançar. Em termos de mercado de Moda, a minha marca é difícil porque eu não produzo mais do que uma sample de cada peça, e conto, em vez disso, com o mercado de slow fashion e a qualidade e natureza artesanal do meu processo.

Há alguma coisa que gostasses de ter sabido antes de te inscreveres no concurso?
Gostava de ter sabido que a ModaLisboa era mesmo a sério, e gostava de saber falar português!

Com base na tua experiência, e olhando também para outros jovens designers que participaram nesta plataforma, qual é que sentes ser a importância do Sangue Novo para novos talentos?
O Sangue Novo permite-nos, enquanto designers jovens e inexperientes, uma plataforma estimulante para mostrar a nossa criatividade. É uma competição, mas eu nunca senti que o fosse. A ModaLisboa guiou-me em cada passo do processo e tenho aprendido muito — isto é importante para mim e para todos os talentos emergentes.

Depois do Sangue Novo apresentaste na Workstation e, nesta estação, no projeto United Fashion Lisboa. Como é que a tua marca evoluiu com estas plataformas?
A minha marca tem evoluído mais por circunstância do que por qualquer outra coisa — as coleções têm-se tornado mais pequenas à medida que as preocupações com as alterações climáticas crescem, e o mesmo com a forma como as apresento. Tenho saudades da passerelle do Sangue Novo, mas tem sido muito desafiante (no bom sentido) ter de pensar fora da caixa e mostrar algo mais conceptual e cativante na Workstation.

E sentes que estas mudanças e, de alguma forma, crescimento, foram importantes?
A progressão que a minha marca tem visto é muito importante, especialmente na maneira como eu faço as peças, porque agora crio tudo sozinho na minha própria máquina industrial de confeção de malhas — é um trabalho árduo (em especial antes das edições de outubro, porque está muito calor no estúdio e o trabalho é muito físico) mas muito recompensador e sei que estou a ir na direção certa.

Quais foram os teus maiores desafios neste percurso?
A confeção é sempre um grande desafio, mas às vezes só encontrar um conceito pode mesmo ser a parte mais difícil. De alguma forma, a coleção acaba sempre por ter de ser feita num mês ou menos e é muito difícil conseguir fazer isso sozinho — felizmente tenho tido uma série de estagiários excelentes que realmente não têm deixado a marca parar!

Como é que olhas para a indústria e o sistema de Moda hoje, e qual é que achas que é o teu papel dentro deles?
O meu papel é fazer o que faz sentido para mim, não ouvir as vozes chatas que empurram as minhas mãos em direção a algo que não é o certo. E também, espero eu, inspirar outros a fazer e a sujar mais vezes as mãos.

O que é que gostarias que fosse diferente, e o que é que gostarias que não mudasse?
Gostava que o ser humano reconhecesse a emergência climática mais cedo e tomasse medidas reais para a parar. Gostava que a minha criatividade pudesse ficar comigo até eu morrer.

Por falar em emergência climática, a sustentabilidade tem-se tornado uma grande parte da tua marca. Porquê, e o que é que estás a fazer para que isso aconteça?
Enquanto ser humano com inteligência, tive de enfrentar os factos e dizer que já chega! Só trabalho ou com deadstock ou com materiais amigos do ambiente e não uso fábricas para produzir roupas. Não acredito que devam existir mais roupas que não precisamos. Durante a ModaLisboa AWAKE, apresentei durante o United Fashion Lisboa e, para esse momento, decidi usar só uma modelo, precisamente para enfatizar o facto de termos de tentar cortar nos materiais desnecessários e usar apenas o que precisamos.

Como é que vês o futuro da Moda portuguesa independente?
Agora estamos em crise, mas vejo o futuro da Moda portuguesa independente de uma forma muito otimista — Se conseguirmos cumprir com as promessas que fazemos para com o ambiente.

A ModaLisboa sempre foi um think tank para projetos diferentes e entusiasmantes, e quer interligar pessoas de diferentes backgrounds criativos. Na tua opinião, quais são, hoje, os projetos e as pessoas a seguir em Portugal?
Pessoas que adoro: Constança Entrudo, João Magalhães, Lexsowet, Perky Mary, Cristiana Morais, Maria Martins, Leonor Bettencourt Loureiro.
Projetos que adoro: No geral, todas as associações culturais — não temos muitos espaços deste género em Londres, e são incríveis. Tenho o meu estúdio nos Anjos 70, por isso se calhar sou parcial.

Esta entrevista a Archie Dickens faz parte de uma série de conversas que debatem o impacto das últimas quatro edições da ModaLisboa | Lisboa Fashion Week. Só pensando o nosso percurso sabemos onde estamos hoje. Só sabendo onde estamos hoje poderemos construir o nosso amanhã.

Foto: © Ricardo Gomes