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27. Março 2020

MODALISBOA AWAKE | REPORT FAST TALKS - WAKE UP

-  ModaLisboa,  Sustentabilidade,  ModaLisboa Awake

MODALISBOA AWAKE | REPORT FAST TALKS - WAKE UP

A ModaLisboa Awake apresentou, uma vez mais, um dos principais veículos de diálogo e discussão da Lisboa Fashion Week: as Fast Talks. Sob a premissa de acordarmos para uma nova forma de operar na Moda, contámos com a presença de três personalidades distintas. Diana Verde Nieto, Jeanne de Kroon e Lisa Lang mostraram-nos como é que podemos despoletar a mudança.

Jeanne de Kroon é embaixadora global de Moda sustentável, oradora em nome da ‘United Nations Ethical Fashion Initiative’ e fundadora da marca ZAZI. A sua maior missão: uma reconexão genuína com a Moda. A marca está sediada em Berlim e as suas peças contam as histórias das artesãs que as criaram, como símbolos de independência social e económica das mulheres.

“Quando fechamos os olhos e pensamos na nossa peça de roupa favorita, lembramo-nos de algo que tem uma história. Esse apego e valor que nutrimos é o mesmo que nos impede de deitá-la fora; e a verdadeira essência da sustentabilidade reside nesse sentimento. Não é possível criar uma peça sustentável, mas antes algo eticamente responsável, porque a sustentabilidade provém antes de uma conexão genuína com o mundo exterior; e é por isso que as marcas têm de conectar as histórias das suas peças com os seus clientes.” 

Diana Verde Nieto é formada em Liderança Global e Política, mas um sentido de dever maior fez-lhe fundar a Positive Luxury, empresa responsável pela Butterfly Mark, um selo concedido a marcas de luxo empenhadas a trabalhar sustentabilidade em todos os sentidos. Após uma avaliação rigorosa (e bem sucedida) que analisa desde as fundações da empresa até ao seu código ético, a Positive Luxury cede os direitos de uma pequena marca em forma de borboleta, que quando “clicada” permite ao público descobrir os alicerces desses mesmos negócios.

“Gro Harlem Brundtland, ex-primeira-ministra da Noruega, criou aquela que é a definição de sustentabilidade: o poder de corresponder às necessidades correntes, sem comprometer as necessidades de gerações futuras. Sob este conceito, conseguimos simplificar em muito a tomada de decisões.” 

Lisa Lang é consultora de moda, tecnologia e empreendedorismo da Comissão Europeia. Está ainda por detrás de empresas como a The PowerHouse, Elektro Couture e OFundamentO, todas elas focadas em estreitar as relações entre a Moda e a tecnologia. Para Lisa a sustentabilidade pode ser encontrada de inúmeras maneiras: na reutilização, na qualidade, no caráter funcional das roupas ou no entendimento daquilo que já foi criado; e a tecnologia revela-se um grande aliado na procura por práticas mais responsáveis e profundas.

“Nada pode conter apenas uma função, especialmente num momento em que a velocidade é um conforto adquirido. Estamos neste momento a usufruir de novas formas de mobilidade, podemos ir de férias para o espaço, tomar café no deserto ou jantar num iceberg. E aquilo que escolhermos vestir em tempos como estes terá de ser versátil e adaptável.”

Quando questionadas sobre o otimismo e o entusiasmo sentido nos muitos cantos da indústria, Diana acredita que as novas gerações de consumidores (Millennials e GenZ), terão um impacto sem precedentes na indústria; estamos a falar de um consumidor que tem uma voz ativa, que sabe o que quer e que comunica a sua opinião em vários canais de social media. O poder está do seu lado e será uma questão de tempo e de luta contínua para que nos possamos aproximar de um sistema mais responsável. Lisa reforça que tudo se resume a perceber de onde é que vem a verdadeira inovação: as empresas digitais e de manufatura estão na linha da frente da ação; e por razões a aprofundar, a indústria da Moda continua a seguir o mesmo “manual de instruções” de há 30 anos, mas a disrupção é iminente.

“E quando esse momento chegar, esperemos que em 10 anos, a Moda terá que pagar por licenças de empresas tecnológicas, de modo a posicionar-se no mesmo patamar que outras indústrias. Notem o exemplo da Farfetch, que é neste momento a “espinha dorsal” de gigantes como a Chanel e Harrods e tudo isto pela simples razão de que foram mais rápidos. Associações como estas serão cada vez mais recorrentes. Lembrem-se de que o fecho zip foi inventado por um engenheiro, mas introduzido por um designer de Moda.”

Para Jeanne, existe também um fator muito humano na expansão deste optimismo:

“Acredito que a mudança na indústria provém também de uma mudança nos nossos corações. Os tempos modernos estão a quebrar ideias pré-concebidas de como devemos viver; retiro este sentimento da minha própria geração, que tanto procura por um propósito e conexão com o mundo: seja pela comida que escolhemos consumir, pela roupa que vestimos, ou a relação criada com o agricultor local. É uma viagem de regresso ao coração, e a Moda tem o poder de facilitar este tipo de conexões.”

Os Governos revelam-se como outra das peças-chave no push por uma indústria mais acordada; seja através da implantação de leis que defendem o nosso planeta ou medidas que protejam os trabalhadores, existe aqui um dever a praticar. Apesar de não depositar grandes esperanças em ações políticas, Diana aponta o foco para as empresas, como recipientes de uma grande força. 

“People, Profit and Planet. Quando reunimos estes valores e mostramos do que somos capazes para lá do lucro, criamos poder.”

Já para Lisa, é crucial acreditarmos nos Governos, porque fazemos parte dele. Pela sua experiência na Comissão Europeia, conclui que para uma indústria ser suportada precisa de primeiro estabelecer a sua definição. Pela perspetiva política, um projeto de natureza tecnológica reúne mais condições de ser financiado, contra um projeto de Design; as desvantagens são essa mesma falta de definição e a ausência de um standard que se prejudica por ser considerado unicamente criativo.

Para que esta deixe de ser a regra, a participação na mudança do sistema é obrigatória; só assim as indústrias poderão partilhar de maneira igual as oportunidades disponíveis.

Num exercício remate de previsões para o futuro, concluiu-se que para todos os efeitos, a mudança vai acontecer e as condições são mais que favoráveis: os hábitos de consumo evoluíram e a tecnologia está bem presente, não só no acompanhamento dos novos hábitos, mas também na forma como nos conectamos. Mais do que nunca. Mas não nos podemos esquecer de que a tecnologia é um meio, uma ferramenta que terá de obedecer àquilo que nós, humanos (e designers), decidirmos fazer dela. E qualquer que seja essa mesma decisão, que seja uma decisão tomada com energia e paixão; porque o toque humano é insubstituível.

“As pessoas pagam por conveniência”, relembra-nos Lisa. E é por essa mesma razão que as experiências serão cada vez mais valorizadas em relação à posse de produtos; esta tendência permite um crescente destaque de empresas como a Rent The Runway, que fazem aluguer de vestuário.”  

No outro lado da moeda, temos uma crescente preocupação e sensibilização pela saúde mental das gerações mais novas (as mesmas que conduzem o futuro); o distanciamento social constitui umas das consequências dos avanços tecnológicos sobre os Millennials e a GenZ e cabe às gerações mais velhas dar o devido suporte emocional que poderá ser alcançado através de um design capaz de servir a sociedade.

Por fim, os conselhos aos jovens designers de Moda que procuram navegar pela sustentabilidade da melhor forma: honrar aquilo que escolhemos não fazer, repensar com longevidade em mente, colaborar, descobrir e fazer perguntas. Muitas perguntas. Só assim poderemos falar de mudança.