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9. Abril 2020

MODALISBOA AWAKE | REPORT CHECK POINT - YOU ARE HOW YOU BUY

-  ModaLisboa,  Check Point,  Sustentabilidade,  ModaLisboa Awake

MODALISBOA AWAKE | REPORT CHECK POINT - YOU ARE HOW YOU BUY

You Are How You Buy” foi a premissa que apresentou o segundo dia de Check Point da ModaLisboa Awake. “Somos o que consumimos”, diz-nos uma influencer, uma instituição, ou um amigo; mas não nos esqueçamos de que a maneira como consumimos é igualmente crucial. Este “como” tem o poder de interligar práticas, ideias, consciências, e principalmente comunidades. Grandes e pequenas. Tem ainda o poder de desligar o “inconsciente” sem sequer darmos pelo interruptor. Na urgência da tomada de decisões, ouvimos um sem número de opiniões e perspetivas sobre como podemos acelerar e desembaraçar o processo de educação (e reeducação) da indústria e do consumidor. O tempo constitui o maior adversário destas duas esferas, sendo utilizado tanto a favor, como contra as circunstâncias; mas se no espaço temporal de uma hora foi possível encontrar várias respostas, imaginemos o que é alcançável através dos diálogos e práticas do quotidiano.

A conversa contou com a moderação de Manuel Moreira e a participação de três convidadas de áreas distintas, que partilham o mesmo drive: a expansão de comportamentos e hábitos mais sustentáveis. 

Maria João Rocha é cofundadora da The Level store, uma loja online de roupa em segunda mão e vintage. 10 anos de experiência na indústria da Moda fizeram-lhe abandonar uma realidade profissional desalinhada com a tentativa de viver uma vida mais zero waste e sustentável, criando assim um espaço de consumo cuidado e criterioso, que contorna o fator mais prejudicial da indústria, a produção de vestuário.

Eunice Maia é também cofundadora, mas da mercearia biológica de produtos a granel, Maria Granel. Fruto da saudade, o espaço nasce com a vontade de recuperar o espírito das mercearias de bairro, e de homenagear as raízes e as comunidades de onde os fundadores são oriundos, Açores e Minho.

Já o trabalho de Ângela Morgado, Diretora Executiva da ONG WWF Portugal, suporta a difícil e desafiante tarefa de angariar fundos para investir na conservação da natureza, convencendo governos e empresas de poder político, associativo e económico, a transformar as suas atividades em práticas mais sustentáveis. No seguimento da mesma missão, Ângela também transporta informação aos cidadãos, de modo a promover um círculo aberto, feito de pessoas informadas e ativas, que contribuem para um futuro consciente.

Consumidor e Indústria. Quem é o maior responsável pela mudança?

No meio de inúmeros “apontar de dedos”, esta é uma das questões que insiste em levantar ruído. Cada setor, cada nível, defende as suas dificuldades como atenuantes incontestáveis, incapazes de serem alterados ou melhorados; e por defeito, ficam esquecidos os pequenos e grandes esforços que cada um desses papéis pode invocar; como que potencial “mal escondido”. Sob a ideia partilhada por Manuel, de que o consumidor é pressionado a responsabilizar-se por grande parte da mudança (independentemente das suas dificuldades individuais), Ângela acredita que existe uma ideia errada, e global, de que as grandes transformações são difíceis e solitárias; a WWF defende a distribuição da responsabilidade por toda a sociedade, em nome de uma maior qualidade de vida. Consumidores, indústrias, e poder político formam um único tecido feito de ações adaptadas a cada contexto; no caso consumidor, a sua responsabilidade passa por manter-se informado, de forma a criar um perfil de consumo mais responsável.

É certo que o sentimento de impotência e derrota perante um cenário catastrófico é inevitável; por vezes, o cidadão comum não detém a disponibilidade ou a posição sócio-económica necessária para ter acesso às ferramentas de transformação: infelizmente, o acesso à informação de qualidade, e o poder de escolher como viver, ainda são duas formas de privilégio, No entanto, a grande camada que detém essas possibilidades, carrega também o papel de difundir informação, e de abraçar mais pessoas nesta mudança de comportamentos.

Eunice conta-nos que a partir do momento em que abriu as portas da Maria Granel no bairro de Alvalade, carregava também nas mãos um conceito em contra-ciclo: perante a conveniência de um supermercado, a sua mercearia pedia aos consumidores que abrandassem; a venda a granel implica uma compra lenta, e planificação de quantidades ou dos recipientes necessários, a partir de casa. Logo a partir deste primeiro passo, o consumo consciente acontece, inconscientemente. O primeiro cliente a trazer os seus próprios frascos (a prática assenta no acrónimo “BYOC”, bring your own containers), surgiu semanas após a abertura, e o acontecimento foi celebrado em plena loja; os presentes assistiram com atenção àquele cliente que se abastecia, e a partir daí, como que um fenómeno, os restantes clientes passaram a fazer o mesmo. Atualmente, a Maria Granel orgulha-se do seu perfil transgeracional, recebendo clientes mais velhos que visitam a loja pelo fator nostálgico, e gerações mais jovens que procuram novos hábitos de consumo. De maneira indireta, ou subliminar, a Maria Granel abraça as suas pessoas nesta missão de sustentabilidade, e prova que com mensagens de otimismo é possível trazer mais pessoas para um cenário de futuro positivo. A mensagem é unânime: não existe um único motor; somos todos responsáveis pela mudança; o consumidor consciente tem o poder de transformar a oferta, e a indústria, o poder de responder com eficácia. No entanto, o estado de urgência atual obriga a que a distribuição de esforços seja estudada: a introdução de uma cultura de sustentabilidade constitui um processo de educação lento, pois estamos a falar da desabituação de décadas e décadas de consumismo crescente.

“É preciso falar de liberdade individual e ceder o poder a cada indivíduo de tomar as decisões por si, pela sua consciência, e pela informação que lhe para nas mãos. O consumidor não vai de repente deixar de consumir, é algo que se faz com educação, muita paciência, e não de uma geração para a outra. O momento de urgência que vivemos pede que a responsabilidade seja passada para o lado do poder e do impacto de larga escala, e é por isso que é essencial pressionar as grandes empresas.”

Sustentabilidade e os seus Sinónimos

No caminho por um maior entendimento da sustentabilidade, é também preciso reconhecer as diferentes abordagens que esta pode assumir. Ângela relembra-nos que, para além do contexto ambiental, a sustentabilidade estende-se por setores como o da saúde, nutrição (regra geral, uma dieta sustentável será também uma dieta mais saudável), e economia, na medida em que por vezes os produtos mais responsáveis são também aqueles de valor mais acessível. Juntas, todas estas questões formam aquilo que podemos considerar de qualidade de vida, algo que é do interesse de todos, e que transpõem barreiras socioeconómicas e de literacia: é um valor procurado e ambicionado por qualquer estilo de vida.

Fora da esfera individual, temos um outro tipo de sustentabilidade que apela à nossa consciência coletiva: a sustentabilidade ética. A probabilidade de neste momento vestirmos uma t-shirt de algodão orgânico é grande, dado que as “etiquetas verdes” estão bem democratizadas no mercado de fast fashion; mas quem é que de facto cortou, coseu, ou engomou essa t-shirt? Será mãe? Quantas horas trabalha por dia? Qual é a realidade dessa pessoa? Se prestarmos atenção, todas estas questões são visíveis a olho nu, no entanto ignoradas por um consumidor que não quer pensar no que se passa do outro lado do mundo. Ideias como o poliéster ou o algodão reciclado, são mais fáceis de observar, comunicar, e consequentemente de vender ao consumidor; o fator humano prevalece como um assunto difícil de resolver, ou explicar, mas que precisa ser desmistificado e considerado no ato da compra.

O Caso da Moda 

Seguimos com esta reflexão sobre consumo responsável, agora na direção da indústria da Moda. Questionada sobre os desafios e o crescimento do seu negócio, Maria João reconhece que apesar da The Level depender de uma circulação e transporte a nível mundial, esse mesmo fator revela-se tanto necessário, como positivo; as grandes marcas operam sobre esse mesmo método, e a The Level consegue cortar grande parte do seu impacto só pelo facto de não produzir vestuário. A loja online quer facilitar o acesso a roupa em segunda mão, a um público que não está habituado a consumir esse tipo de produto, através de uma imagem vincada, mas também cuidada. 

“Queremos ser a alternativa da Zara e da H&M. O cliente da The Level conhece a nossa estética e sabe o procura, mas o que temos vindo a reparar é que esse mesmo cliente, não é necessariamente um consumidor sustentável; estamos simplesmente a facilitar algo que ele ia fazer...mas quando esse cliente escolhe comprar na The Level, está ao mesmo tempo a escolher não comprar fast fashion; e esse é um gesto muito positivo.”

Maria João acredita que é possível escalar o negócio e que os maiores desafios serão sempre o envio das peças, devido à natureza digital da loja, assim como a educação do próprio consumidor.

“Quem compra roupa em segunda mão, sabe que o processo e a procura são bastante exaustivos; e acho que essa é a maior razão que afasta as pessoas deste tipo de compra. Eu costumo dizer que fazemos o dirty work pelos nossos clientes, porque tentamos contornar esse passo, e até porque muitas pessoas não se sentem à vontade para fazê-lo. A conveniência é um fator que prejudica em muito o caminho para o consumo sustentável, e precisa ser aliviado do nosso padrão de comportamento consumista.” 

Duelo de Escalas

Entendemos agora que entre o consumidor e a indústria existe um leque de responsabilidades e práticas a adoptar, em nome de um futuro de consumo consciente. Resta-nos compreender melhor o papel de cada empresa, de grande e pequena escala, na promoção da mudança. É uma ideia comum e geral, pensar que as microempresas perdem para grandes empresas e corporações em termos de alcance; gera-se aqui uma sensação de que os recursos são distribuídos de maneira injusta, pois os negócios de pequena escala representam os grandes esforços pela mudança, enquanto que os “gigantes” da indústria continuam a compactuar com práticas convenientes e gananciosas. Ângela explica-nos melhor:

“Em ambos os níveis, há processos bons e maus; segundo a opinião da WWF, de acordo com a sua própria escala, todos devem transformar o seu negócio para algo mais sustentável. Independentemente do seu impacto, a responsabilidade e as boas práticas terão de ser partilhadas, só assim conseguiremos encontrar uma solução positiva para todos. É preciso transformar cadeias de produção, sourcing de produtos, e focar nas grandes fontes de poluição.”

No remate, Ana Costa da plataforma Catalyst, partilha connosco uma série de dados que para além de informativos, carregam em si uma grande reflexão para o “hoje” e para o amanhã:

“A Global Fashion Agenda é um fórum que desenvolve relatórios anuais, que medem o pulso da Moda. O primeiro foi publicado em 2017, e neste momento já podemos consultar o de 2018 e 2019; e o que é dito neste relatório mais recente, é que são as grandes marcas que estão a mobilizar a sustentabilidade, assim como investem na sua inovação. Portanto, quando se pensa que grandes grupos e marcas não estão a fazer nada pela sustentabilidade da indústria, é importante que todos tenhamos a noção de que não é bem assim. Estes três estudos mostram também que o ritmo da inovação em relação à sustentabilidade está a diminuir; isto significa que as questões mais fáceis de tratar já foram resolvidas, obviamente que para as grandes indústrias isto é algo simples de agilizar, porque com os investimentos certos, dá-se um grande salto. Por isso, é importante sublinhar que por vezes comprar marcas mais pequenas ou de nicho, não é necessariamente o ato mais correto. Por outro lado, a responsabilidade é partilhada a 360 graus, não só pelas marcas e consumidores, mas também pelas instituições, pelos media, influencers, criadores de conteúdos, pela ModaLisboa, pelas escolas...só juntos é que conseguiremos chegar mais longe; Mas as grandes mudanças não serão conseguidas a apontar o dedo”.