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17. Abril 2020

MODALISBOA AWAKE | REPORT CHECK POINT – O FUTURO É COLABORATIVO

-  Check Point,  ModaLisboa Awake

MODALISBOA AWAKE | REPORT CHECK POINT – O FUTURO É COLABORATIVO

No último dia do Check Point da ModaLisboa Awake, a sala que recebeu os momentos de reflexão para ação preencheu-se não só de pessoas, mas também do trabalho resultante do Hackathon sobre o futuro da Moda: post-its, ideias e palavras-chave perfizeram o ambiente de partilha que se viveu nos últimos dois dias do evento. Numa conversa moderada por Vanda Jorge, o painel de convidados partilhou experiências e discutiu sobre um futuro que se quer colaborativo.

Joana Lacerda é Head of Business Development da ThePowerHouse, consultora alemã que pretende pensar a tecnologia têxtil e a Moda no futuro, e ainda do OFundamentO (FNDMT), empresa portuguesa sediada no Porto que quer contribuir para a indústria e produção do vestuário do futuro. Pensem naquele que será o guarda-roupa de férias no espaço...a FNDMT quer ser a responsável por essa decisão.

Paulo Gonçalves é Diretor de Comunicação da APICCAPS, a associação do setor do calçado português que navega (e opera) por este mundo fora com o estatuto da “Indústria mais sexy da Europa”. Participa ainda no projeto da Comissão Europeia, “Open Your Mind” que pretende promover o emprego na indústria de produção têxtil e calçado.

Olga Noronha é designer de joalharia e a transversalidade do seu trabalho chega aos mais diversos mercados, todos eles ligados por colaborações empáticas; desde a investigação académica que liga a arte à ciência, passando pela curadoria de museus, até ao design de objetos de luxo.

Lourenço Thomaz é fundador e diretor criativo da agência de publicidade portuguesa Partners, que pertence agora ao grupo japonês, Dentsu. Lourenço reconhece que independentemente do setor, a colaboração é essencial: tanto a Moda como a publicidade são feitas de ideias e no caminho para a inovação, a reunião de forças pode ser o derradeiro motor. 

"Não tenho dúvida nenhuma de que podemos tornar o ambiente de colaboração em algo mais cool e democratizado. Quando cada um trabalha por si, os resultados são muito mais demorados e pobres; já a colaboração, permite uma aprendizagem e melhoramento contínuo. Portugal precisa de se libertar da cultura do querermos ser bons, e não desejarmos o mesmo para a nossa concorrência, é uma mentalidade que nos coloca em grande desvantagem em relação a outros países.”

EUROPA COLABORATIVA

A conversa iniciou-se com a introdução do projeto da Comissão Europeia, “Open Your Mind”. Paulo Gonçalves é um dos embaixadores desta missão que reuniu seis países europeus ligados pelo seu legado e tradição na área da Moda - Portugal, Itália, Espanha, Roménia, Polónia e Alemanha - com o intuito de encontrar estratégias de sensibilização das oportunidades existentes no setor do calçado e vestuário. Atualmente, mais de dois milhões de pessoas são empregadas pela indústria europeia, sendo que cerca de 400 mil colaboradores partilham uma média de idade de 55 anos, criando uma crise de crescimento em médio prazo se nada for feito para fomentar a empregabilidade destes setores. As estimativas apontam para a necessidade de meio milhão de novos colaboradores no espaço de uma década e um dos maiores entraves deste desafio é a existência de um conjunto de estigmas e preconceitos relacionados com estes setores, algo que Paulo afirma estarem particularmente desfasados da realidade.

“A dada altura, pensei que este problema fosse especificamente português, mas é na verdade algo que tomou proporções ao nível de toda a Europa industrial; não há nenhum país, seja ele mais ou menos relevante, que não partilhe dos mesmos desafios e é por isso que é muito importante trabalharmos em conjunto, de forma a alterar a perceção desta nova realidade.”

O espírito colaborativo deste projeto evidencia-se na consideração pelo contexto de cada país participante; apesar de partilharem a mesma raiz, as realidades são em grande parte distintas, criando a necessidade de se desenvolver um conjunto de ações que encaixem em todas as situações.


TECNOLOGIA E TRADIÇÃO

Na procura por soluções que fortifiquem a ligação da indústria tradicional têxtil aos potenciais avanços tecnológicos, Joana reconhece a existência de alguns desafios baseados no caráter clássico do setor da Moda; a inovação continua a ser associada ao investimento em novas máquinas e não à simples quebra do pensamento e mentalidades. O futuro da indústria passa pela abertura de horizontes e pelo reconhecimento do grande alcance que a Moda pode ter, bem para lá da utilidade que lhe atribuímos atualmente. E foi com essa vontade de abrir caminho, que Joana e a sua equipa iniciaram uma campanha kickstarter que pretende despoletar uma revolução palpável, onde todos se poderão rever e identificar emocionalmente:

“Com o centenário da Bauhaus de fundo, decidimos celebrar o valioso trabalho das mulheres que fizeram parte desta escola e que muito contribuíram para o que hoje conhecemos da indústria têxtil; convidámos duas artistas a criarem arte inspirada no legado destas mulheres e transportámos o resultado, na forma de padrões, para máquinas reprogramadas de jacquard. O resultado foi fantástico, e com este tipo de ideias aquilo que queremos promover é que todos nós podemos ser creative technologists; se não tivermos medo da tecnologia enquanto entrave à criação, uma nova dimensão de possibilidades será revelada. Desta forma, também a indústria se adapta às novas realidades do presente e do futuro.”

COLABORAR COM EMPATIA

No que toca à colaboração entre disciplinas distintas, o espólio de Olga revela-se um exemplo máximo. Os seus trabalhos conectam-se através de relações empáticas e fluídas, uma combinação de sentimento e naturalidade que joga, e muito, a favor das suas longas “viagens” pela indústria. O projeto “Joalharia Medicamente Prescrita” surge de uma colaboração familiar nutrida de inspiração pelos seus pais, médicos de profissão. Espaços como ambulatórios e enfermarias fizeram parte da infância de Olga, que visitava não só os pais, mas também os seus pacientes, com regularidade.

“Rapidamente comecei a perceber que o sucesso de uma cirurgia e do seu pós-operatório tinha em grande parte a ver com a relação que os meus pais estabeleciam com os seus pacientes. Havia ali algo que misturava emoção, sentimento e preocupação, que juntava o útil ao agradável, e contribuía para essas ligações tão fortes.”

O entendimento de que entre a medicina, a modificação corporal e a joalharia existiam grandes simbioses não assumidas, levou então ao nascimento do projeto em 2011. A sua missão poderá dividir opiniões, mas é indubitavelmente curiosa e profunda em todos os sentidos: tornar o ato médico cirúrgico numa experiência mais holística e estética, através da personalização da peça que será inserida no corpo do paciente.

“É um projeto claramente de nicho, que responde a um mercado de costumização de luxo, pela ideia de chegar a um gabinete médico e em vez de mostrar ao paciente a prótese da anca (o que desenrola um processo de rejeição de colocar um pedaço de metal dentro do seu corpo), o médico pode antes apresentar uma alternativa onde pode cravar um diamante, ou gravar um poema visível através de raios-X, como que uma tatuagem interna."

Apesar de trabalhar sozinha, Olga reconhece que o projeto funciona hoje como um catalisador de conhecimento médico com bioengenharia, medicina dentária, ortodontia e engenharia biomecânica. Paralelamente a este projeto, a designer acaba de inaugurar uma exposição patente na Boutique dos Relógios Plus, na Avenida da Liberdade, também ela sobre a “fusão entre anatomia e medicina, através de esculturas usáveis.”

“Neste momento, quero abraçar as propostas que me fazem e tentar cumprir da melhor maneira possível; sou formada em Design de Joalharia e costumo dizer que me revoltei no último ano de licenciatura contra o conceito intrínseco à joia; daí ter-me virado para a medicina. Mas de repente, tenho alguém a pedir-me para voltar às raízes e criar uma linha de alta joalharia, que efetivamente já queria ter feito, mas faltava o propósito. O selo que um cliente como a Boutique dos Relógios me atribui é algo que não poderia deixar que me fugisse das mãos.”

EDUCAR A COLABORAR

Quando falamos do futuro de uma indústria, é inevitável debruçarmo-nos sobre os principais players do amanhã: os estudantes. Uma das grandes missões da ThePowerHouse é essa mesma, o apoio aos ambientes de ensino das escolas de Moda e preparação dos seus talentos, através da sensibilização do futuro da indústria. 

“Acho que a responsabilidade também está nas universidades, no que toca a este tipo de discurso. Uma das universidades com que trabalhamos é a Polimoda, precisamente porque vieram ter connosco e pediram-nos ajuda para explicar aos alunos o que é o futuro da Moda. O maior desafio passa por introduzir a linguagem tecnológica numa indústria que se baseia tanto no valor artístico, intelectual e emocional, por isso, a nossa tarefa é quebrar esta expectativa de que um curso de Moda vive apenas do seu valor artístico, ao mesmo tempo que mostramos a importância de colaborar com áreas da tecnologia e da ciência.”

Confirma-se que o interesse por este tipo de setores está cada vez mais estabelecido, não só por uma das via, mas também pela contrária. Gigantes como a Louis Vuitton procuram neste momento aumentar o seu talento tecnológico, apesar das dificuldades em contratar. Nesse sentido, Joana conta-nos que um dos maiores apelos que a ThePowerHouse faz aos alunos é o de abrirem o seu espectro de conexões e procurarem para lá da Moda:

“Pedimos que procurem os amigos que estudam software development, que saiam de uma escola de Moda e tentem trabalhar numa Google ou numa Microsoft, para que percebam o que podem fazer pela sua indústria. É urgente que comecemos a falar de uma maneira global e horizontal, senão as indústrias irão morrer aos pedaços.”

Se num extremo, encontramos a escolas a prepararem os seus alunos para um futuro feito de novas maneiras de pensar e agir, no outro encontramos um movimento feito de gigantes que na sua própria sombra colaboram e preparam os primeiros passos do futuro. Empresas como a Google e a Apple estão neste momento a patentear têxteis inteligentes, porque sabem que o derradeiro cruzamento entre a Moda e tecnologia está próximo; aparelhos como os telemóveis vão rapidamente deixar de existir da maneira como os conhecemos, e quem sabe se não serão transferidos para as nossas roupas, em nome de uma crescente mobilidade. Para estas empresas, não interessa para já criar manobras de marketing ou uma montra de exposição, mas quando a altura certa chegar, serão as mesmas que estarão prontas para atacar e posicionar-se na linha da frente.

COLABORAR CÁ DENTRO

A principal missão da APICCAPS é a de elevar a indústria do calçado português ao panorama internacional, facilitando o contacto das empresas com potenciais clientes, através de feiras internacionais e uma comunicação forte; a associação representa não só as empresas de calçado, mas também de todos os pequenos grupos que contribuem para o produto final, como bens de equipamento ou artigos de pele e marroquinaria. Estando bem envolvido num setor que exporta mais de 95% da sua produção para mais de 163 países, Paulo conta-nos que as viagens de trabalho resultam também num exercício de escala e perceção.

“Somos muito pequenos; a dimensão média de uma empresa portuguesa de calçado é de 33 trabalhadores por empresa, por isso, se queremos exportar e ganhar notoriedade, a colaboração é inevitável (...) Se continuarmos voltados para nós mesmos e apenas para a nossa realidade, será muito difícil de criar novos rumos, daí que seja essencial delinear um projeto de futuro que englobe todos os níveis da indústria.”

Fruto do trabalho de comunicação internacional da APICCAPS é também a Portuguese Soul, publicação bianual que já conta com mais de 10 anos de trabalho colaborativo; o que nasce com a ambição de promover o calçado português em formato editorial, rapidamente se transforma num ponto de cruzamento dos restantes setores.

“Percebemos que seria muito mais vantajoso juntar os restantes setores, do vestuário e ourivesaria. Metade dos designers portugueses que hoje apresentam na ModaLisboa utilizam sapatos portugueses, graças às pontes geradas entre as nossas empresas e os criadores. Só faz sentido pensarmos na Moda portuguesa de forma integral, de outra forma perde sentido e força.”

COLABORAR COM PROPÓSITO

Voltamo-nos agora para o mundo das marcas e para um dos valores que mais interesse e curiosidade gera na atualidade: o propósito. Sobre a importância de colaborar com intento, Lourenço não deixa dúvidas de que este é um move de grande importância, defendendo que qualquer marca que procure diferenciar o seu trabalho, só o conseguirá fazer levando o conceito ao máximo. É necessário colocar os produtos ao serviço das causas, de forma a balançar apoio e lucro.

“No ano de 2017, a Adidas começou a recolher plástico dos oceanos, resultando na produção e venda de três milhões de pares de ténis, no espaço de três anos; estamos perante um grande exemplo de como marcar uma posição, criar um statement, sem perder o fator lucro de vista. As agendas das marcas vão estar sempre por trás das suas ações, e a melhor maneira de fazê-lo será investindo o seu know-how nessas mesmas causas.”

Outro caso de sucesso é o da marca de outdoor Patagonia, que no ano passado lançou uma campanha que contrariava o principal veículo da indústria: o consumo. Por cima da imagem de um casaco da marca, podemos ler a frase “Don’t buy this jacket”; mais abaixo, uma série de razões para não o fazer, focadas na grande qualidade dos materiais e execução dos seus produtos, e consequentemente, na sua longevidade. Em suma, os casacos da Patagonia são tão bons que atravessam gerações, e por isso, a compra de um novo produto terá de ser considerada e justificada. Nesse mesmo ano, a marca quadruplicou o seu lucro, não só a solidificar a lealdade do seu cliente habitual, mas também apresentando-se a novos compradores.

No fecho da conversa, solidificaram-se opiniões e trocaram-se perguntas e respostas com o público. Ainda que colaborar seja a prática do futuro que precisa ser adoptada hoje, Portugal não pode esquecer-se de olhar para dentro; as ideias precisam ser conservadas com estima, por serem tão valiosas. Em resposta às maneiras como Portugal pode marcar a sua posição enquanto país inovador e first-mover, Joana acredita que a chave está na desmistificação da indústria e na sua adequação aos tempos reais. Portugal já é reconhecido como um país onde se produz com qualidade e compromisso, e isso é o que atualmente nos distingue dos demais; mas não podemos esquecer-nos da grande riqueza que também detemos enquanto criativos e que não está a ser espelhada devidamente. Falta um órgão que reflita para o exterior, para podermos mostrar ao resto do mundo o que estamos a fazer acontecer.

Já Fernanda Torres, facilitadora do Hackathon desta ModaLisboa, ajudou-nos a encerrar a discussão com a hipótese de um futuro feito de novas maneiras de pensar o presente. Uma (valiosa) ideia que nos propõem a deixar para trás, as pré-conceções de um Portugal pequenino:

“Portugal precisa largar esta ideia de que somos pouquinhos, e de que temos um tecido empresarial fraco; é necessário ver estas circunstâncias não como limitadoras das suas ações, mas antes pontos de força que sejam capazes de criar soluções adaptadas à nossa escala. À semelhança do leapfrogging, podemos deixar de ser seguidores, pensar no futuro por nós próprios e começar já a trabalhar nisso. Temos pessoas fantásticas, o país está cheio de talento e as possibilidades são muitas, por isso, em jeito de call for action, vamos colaborar, pensar no que podemos fazer pelos próximos 15 anos e começar a colocar bandeiras.”