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19. Maio 2020

MODA NACIONAL: IMUNIDADE COLETIVA E COLABORAÇÃO CONSTANTE

-  Moda Portuguesa,  Check Point

MODA NACIONAL: IMUNIDADE COLETIVA E COLABORAÇÃO CONSTANTE

No dia 14 de maio, pelas 15H30, os maiores representantes da indústria de Moda em Portugal sentavam-se, cada um na sua casa e espalhados pelo país, para perguntar, responder, conversar, debater e pensar o setor.

Nuno Marinho, Presidente da AORP; César Araújo, Presidente da ANIVEC; Luís Onofre, Presidente da APICCAPS; Eduarda Abbondanza, Presidente da ModaLisboa e Mónica Neto, Project Leader do Portugal Fashion foram os oradores do webinar “Moda Nacional: Imunidade Coletiva”, uma conversa brilhantemente moderada por Fátima Santos, Secretária Geral da AORP.

“É uma oportunidade, um fórum para partilharmos experiências, visões e, quem sabe até, chegar a um embrião de solução para o impacto que esta pandemia teve na economia em geral, e no cluster da Moda em particular”, explicou Nuno Marinho como forma de dar o pontapé de saída. Durante duas horas, a Moda encontrou a resposta na união.

“A INDÚSTRIA É UMA ORQUESTRA”

Setores em que quase 70% da indústria está em layoff, total ou parcial. Quebras na faturação que ascendem aos 50%. Encomendas canceladas ou adiadas, designers que não conseguem produzir e, por isso, não podem vender nem ter meios para erguer a próxima coleção. A pandemia do novo coronavírus foi o maremoto que ninguém conseguiu prever. Hoje, o mundo inteiro procura a solução. César Araújo diz que “a indústria é uma orquestra. Todos funcionam em cadeia e fazem uma atividade em plena harmonia” e o mesmo podemos dizer do design de autor, da ourivesaria, do calçado, do têxtil: todos tocam o seu instrumento na sinfonia da Moda nacional. Sabemos em que circunstâncias estamos. Mas para onde é que vamos?

“NUNCA TEREMOS UMA RESPOSTA ÚNICA PARA O FUTURO”

Para definir uma estratégia, é preciso reformular tudo o que conhecemos sobre o sistema de Moda. “O ciclo da Moda ruiu. Rebentou”, diz Eduarda Abbondanza. Começa por olhar para a quantidade de coleções que se produzem por ano. De dois em dois meses, se não contarmos com coleções-cápsula, as marcas globais estão a lançar produto para o mercado. “Isto está diretamente ligado a uma ideia de globalização a que todos nós, mal ou bem, e mesmo que precisemos dela, sabemos que está errada, porque é selvagem, não tem regras, não tem ética, não tem nenhum pensamento que diga respeito ao ser humano. Tem um pensamento exclusivamente ligado ao dinheiro. Essa globalização implica um excesso de tudo.”

Há que quebrar a roda e o primeiro passo, mesmo que seja difícil ver a luz ao fundo do túnel, parece claro: “diminuir o excesso de produção — a quantidade de estações, a quantidade de coleções, e o número de peças de cada estação. Mas como é que vamos conseguir reduzir e continuar a alimentar uma indústria? Havendo uma redução, tem que haver um aumento de qualidade, não só na manufatura, como no valor estético”, explica Abbondanza.

E se repensamos estações, temos também de repensar o calendário. Para Luís Onofre, e numa opinião que vai de acordo ao movimento internacional Rewriting Fashion, as coleções só deveriam ser apresentadas quando estivessem prontas a ser vendidas. Um ato direto, imediato, limpo. Desfile — seja em que formato for — e compra. Até porque o retalho está em crise e a venda direta ao consumidor é cada vez mais assumida como primazia, especialmente com o crescimento dos canais digitais.

Esta disrupção necessária remodela o sistema internacional, mas o caso português precisa de outros reforços. Ter apoio é o primeiro passo. César afirma que a recuperação “tem de ser um projeto conjunto. Isto requer medidas não só europeias, têm de ser medidas mundiais. Estamos a falar do mundo. Estamos a falar da sustentabilidade da raça humana”, e Luís Onofre acredita que é necessário, “em conjunto com o Governo e de forma criativa, encontrar soluções para as exportações”. Um apoio governamental — como aconteceu na China, nos anos 2000 — será chave para a recuperação do setor.

“TEMOS UMA MARCA PORTUGAL FORTE”

A Marca Portugal já era falada antes do confinamento enquanto alavanca de comunicação internacional. Mas, para Eduarda, deveria ser um “ato de coragem, de apoio estratégico do próprio país na criação de ativos, na criação de marcas. Não podemos apoiar a comunicação internacional se não temos uma política para a criação de um ecossistema para o seu desenvolvimento. Está na altura de ter essa política, que envolve os criativos e a indústria”. Isto incide na produção ética, certificada, protegida e controlada. “É mais cara, por isso o que sair desta produção terão de ser produtos mais interessantes, mais inteligentes, mais emocionalmente efetivos na vida de quem os adquire, e com uma longevidade maior.”

Nuno concorda totalmente e reforça que “a aposta em produtos de valor acrescentado é um caminho que temos de seguir dentro de uma estratégia integrada numa ação intersetorial dentro da Marca Portugal”. Mónica Neto apoia que “há uma necessidade de unir esforços como nunca houve. Há uma abertura cada vez maior por parte de todos os empreendedores, por parte de todos os criativos, para fazer algumas cedências e para criar coisas que nunca se criaram anteriormente. (...)  Temos dificuldades em afirmar marcas portuguesas fortes, mas temos uma Marca Portugal forte. (...) Nós temos tudo, só temos de nos unir”.

César Araújo discorda. Reforça que a globalização vai voltar em força, mesmo que de uma forma mais sustentável, e que as marcas têm de pensar global e não de forma bairrista para que não arrisquem limitar o seu potencial. “Pensar globalmente vai fazer com que a nossa indústria possa subsistir e apoiar os nossos designers.”

Mas Nuno argumenta que Portugal sempre foi “um país de exportação, não é agora que vamos parar. Mas o orgulho — que é algo que muitas vezes nos falta — naquilo que fazemos, naquilo que produzimos, naquilo que criamos, terá de fazer parte dessa marca, do nosso ser, da forma como interagimos e como nos apresentamos lá fora”. E Eduarda reforça que “as marcas desenvolvem-se e ensaiam-se no seu território”.

Tudo isto passa também por uma educação do consumidor. Realçar a produção ética e sustentável Made in Portugal, reafirmar a importância de um consumo responsável, relembrar o poder do design e reeducar velhos hábitos é um trabalho árduo e lento, mas necessário. Neste sentido, a APICCAPS acaba de lançar uma campanha intitulada “Está na hora! De comprar calçado Português”.

LET’S GET FIGITAL

O futuro é digital? Ou será o presente muito mais digital do que o futuro?

Mesmo que o amanhã seja difícil de conceber neste momento, o hoje não é. Todos os que, felizmente, têm acesso à tecnologia, aprenderam a viver com ela. Deixou de existir um gap geracional, deixou de existir uma exclusividade etária na utilização das ferramentas online. O digital é transversal. Mas queremos que seja universal?

Não. Queremos que seja um trampolim para outra dimensão.

A forma como o sistema de Moda atuava ocupava demasiado tempo mental e criativo, gastava demasiados recursos, poluía demasiado o planeta. Desfiles, feiras, showrooms: é muito possível que nenhum destes eventos que dávamos como garantidos volte como os conhecíamos. “O digital vai ocupar um espaço muito grande, e duas ou três feiras a nível mundial vão ser o complemento ao digital”, diz César. Mas todos concordam que um não anulará o outro.

“Nós precisamos de sensações, de cheiro, de toque, de textura. A apresentação física terá de existir, independentemente da evolução. Terá de existir o ‘figital’, o físico e o digital numa fusão. Penso que será esse o caminho de futuro da comunicação e apresentação a parceiros e clientes”, afirma Nuno. A AORP já começou a percorrer este caminho e prepara-se para lançar um marketplace, “primeiro sob a forma de diretório, depois como uma plataforma de e-commerce perfeitamente capacitada que possa ser uma primeira experiência como plataforma de lançamento para as nossas empresas”.

Também a APICCAPS está a construir uma “plataforma onde os industriais — tanto a nível de private label, como a nível de marca — possam apresentar as duas coleções. Também vamos tentar envolver o IAPMEI e a AICEP em todo este processo, e aqui fica o convite para todas as associações que se queiram juntar a nós neste Made in Portugal que é tão importante”.

E os eventos? O que é que acontece às duas semanas de Moda nacionais? Tanto Eduarda como Mónica concordam que ainda é demasiado cedo para traçar um plano definitivo. Mónica revela que o Portugal Fashion tem “feito várias reflexões, tentando perceber que mudanças podem ser apenas transitórias e de adaptação a este tempo, e outras mudanças que podem ser um bocadinho mais estruturais e de renovação de conceito, que são aquelas que já falámos aqui — a sazonalidade que fica em causa, a apresentação de produtos mais intemporais, quase um dicotomia entre aquilo que é o slow fashion, com um ritmo diferente, mas depois também um quick time to market, porque nunca pensámos tanto no consumidor final e na necessidade dos designers e das marcas de porem rapidamente as peças disponíveis.”

Já Eduarda conta que está a desenhar várias possibilidades para a ModaLisboa. Em cima da mesa, trabalha-se com uma multiplicidade de planos que vão sendo reajustados com o evoluir da situação. “Temos de ter plataformas digitais de comunicação que serão mais envolventes. Não é ter uma página na internet — tem de ser mais do que isso”, uma aposta que se direciona mais para tecnologia de ponta do que para os tradicionais meios online. Afinal, o digital é um universo inteiro por explorar. Mas a componente física da Semana de Moda também está a ser estudada de todos os ângulos que não comprometam a saúde pública, porque a proximidade humana (mesmo que seja com distância de segurança) continua a ser impossível de reproduzir num ecrã, por maior que seja a resolução. César di-lo melhor que nós: “Na Moda temos de trocar opiniões. Não me posso cingir a estar em frente a um computador. O grande fator do ser humano é que vamos crescendo enquanto pessoas partilhando pensamentos com os outros, e a Moda é um pouco disso”.