Check Point

Fashion Hackathon: As Conclusões

08 Março
18h30
ModaLisboa

Uma amálgama formada pelos termos “hack” e “marathon”. Um hackathon é um atalho para encontrar soluções, ou cortar caminho com intensidade; uma happy hour, mas de várias horas, de ideias. A prática surge para reunir um grupo de profissionais num ambiente de reconhecimento de desafios e das suas respetivas soluções, nas mais diversas áreas e indústrias.

Foi desde muito cedo que a plataforma Check Point se posicionou ao lado do calendário habitual, como um ponto de encontro de makers e thinkers, pronto e apto a criar ligações entres setores e profissionais da indústria de Moda nacional, mas também das suas amplas periferias. Proporcionaram-se ambientes de discussão do passado e do presente, mas também de um futuro que se quer democratizado e colaborativo; o objetivo, já esse, é comum a todas as ações: contribuir para a construção de uma indústria mais forte e justa, que permite a entrada e circulação de novas ideias e soluções que fortalecem o tecido criativo.

Com o intuito de provocar e gerar soluções, mas também de viajar até ao futuro, a ModaLisboa juntou-se à FTinnovation para criar o primeiro Hackathon de Moda em Portugal. Inserido na plataforma Check Point da edição Awake, o momento de ação não poderia ser mais oportuno e simbólico: estamos rodeados de ferramentas, pensadores, doers e gerações jovens prontas a colaborar para tomar o testemunho. A informação é infinita, está ao alcance de todos e permite um crescimento e reeducação individual e comunitária sem precedentes, mas o futuro cria-se no presente e foi numa “corrida de estafetas”, moderada pela designer e gestora de inovação Fernanda Torre, que foi facilitada a discussão ativa entre 12 profissionais ligados à indústria da Moda pelas mais diversas áreas como a comunicação, design, legislação, business e tecnologia: Diogo Morais Oliveira, Advogado com foco nos direitos humanos e autorais; Rita Cortes Valentes, Ethical Designer; Ana Costa, Partner na rede Catalyst Future Fashion; Vanda Jorge, Coolhunter no Jornal ECO; Pedro Noronha Feio, Designer d’O Capelista Design Studio; António Vasconcelos, Diretor da The Natural Step e Sustainability Officer do Planetiers World Gathering; João Meneses, Secretário Geral da BCSD Portugal; Sandra Dias, fundadora da Terramotto; Joana Lacerda e Lívia Pinent da ThePowerHouse e OfundamentO; Patrícia Domingues, PR de Moda e Beauty Account e Inês Veiga, Investigadora e Social Designer.

À semelhança de Hackathons de outras naturezas, procurou-se provocar e explorar pensamentos que abrissem portas a novas possibilidades e permitissem a criação de guidelines ou pilares fundacionais para a atuação nos meses e anos que se avizinham.

“The pace of change has never been this fast, yet, it will never be this slow again” foi a quote que lançou estes dois dias de reflexão para a ação; o ritmo da mudança não é o mesmo que ontem, e tão certo não será o mesmo que amanhã, por isso, agir no presente para modelar um futuro que contraria previsões constitui um mindset poderosíssimo.

“Adivinhar o futuro não é relevante, mas sim compreender que as nossas ações presentes influenciam o amanhã; a incerteza é uma oportunidade de influenciar e trabalhar com o futuro”.

O ponto de partida é um leque de fatos já bem conhecidos dentro e fora do sistema: a Moda é uma das indústrias mais poluentes do mundo, assim como representa uma grande fatia da indústria e exportação portuguesa, no entanto, o país reúne uma série de fatores e vantagens para liderar a mudança ao nível de produção, situação geográfica e tecido criativo. A área territorial não pode ser tema de discussão, quando Portugal é também feito de tradição, inovação, saber-fazer e criatividade, uma combinação que pede a derradeira união de forças e afinamento das estratégias e propósitos, para que a verdadeira mudança e crescimento aconteçam.  

MÉTODOS E FERRAMENTAS

Após uma apresentação do contexto e cenário correntes, o Hackathon iniciou-se com um exercício de team building, que permitiu aos participantes conhecerem-se melhor, seguido por uma discussão aprofundada dos vários desafios da sustentabilidade na Moda. Esta permitiu a definição de quatro de pilares sobre os quais os participantes se debruçaram e dividiram as suas perspetivas para o futuro: Património, Consumo, Produção e Tecnologia.

Grupos de trabalho foram formados e para cada um destes pilares geraram-se premissas para a criação de utopias (produtos e serviços), analisadas e exploradas pelo seu teor prático.

Neste espaço de reflexão e projeção, os participantes puderam ainda mostrar as suas competências enquanto líderes de pensamento no contexto nacional, um estatuto que os torna capazes de desenhar uma estratégia (feita de visões, perspetivas, consciências e realidades) e demonstrar os passos necessários para a sua execução.  

No remate da apresentação dos projetos foram apresentados os 4 princípios desenhados para cada uma das áreas abordadas neste Hackathon, tomando a forma de um manifesto.

PATRIMÓNIO

"O património deve ser potenciado numa lógica ambiciosa de novas centralidades regionais, orientado para a criação de valor sustentável. Redescoberta do património, como a base sustentável para a criação de valor em atividades económicas numa perspetiva regional mais abrangente, rompendo selos e fronteiras. As suas características únicas em cada região devem ser criativamente predispostas ao serviço de comunidades mais abrangentes, criando uma dinâmica de forte atração e crescimento do emprego, na qual nos voltamos a conectar com as nossas origens, partindo daí para o mundo."

O primeiro grupo a apresentar a sua proposta dedicou-se ao pilar do Património. Patrícia, António, Sandra e Pedro tiraram partido da sua dinâmica interdisciplinar e conjugaram competências (dos campos do design, estratégia e comunicação) de forma a atingir novos horizontes. O resultado culminou numa aposta pela descentralização como método de expansão e evidência, do património material e imaterial português: um afastamento das grandes metrópoles e habituais pontos de força cultural seria a chave para criar foco sobre riquezas locais e estabelecer novos laços dentro do próprio país, mas também com o resto do Mundo.

Este “revirar do mapa” poderia ainda contribuir para a reorganização da densidade populacional, através estímulos à repovoação destes locais, como a criação de emprego, apoios ao deslocamento e a criação de eventos que celebrem e promovam estas oportunidades. As gerações futuras serão uma das peças fulcrais desta nova centralidade, constituindo um target que precisa ser incentivado a abrir horizontes e a procurar construir comunidades criativas em espaços que há muito precisam de revitalização cultural e geracional. Numa sociedade cada vez mais esgotada e ressacada de ideias, o regresso às origens e a procura por identidade valem ouro e poderão muito bem ser encontradas nestes possíveis centros de futuro.

O resultado desta visão (desenvolvida através da metodologia de backcasting) tomou a forma de uma notícia escrita e datada de 8 de março de 2030:

“A Covilhã acolhe a próxima edição do maior evento de Moda do país, na mesma semana em que inaugura o museu interativo das artes e ofícios, considerado um dos melhores da Europa. “Pensar bem para agir melhor” é o mote do evento de Moda tornado possível pela nova centralidade da Covilhã, enquanto polo articulado da grande região intrafronteiriça envolvendo 8 milhões de pessoas. Este novo mercado impulsionado por uma nova geração tecnológica potenciou o lançamento de novas marcas, apostando na regeneração do património e alavancadas no saber e costumes locais, reposicionam Portugal como um criador de novos conceitos de Moda e luxo. “O que é curioso de observar é que esta reinvenção acontece para lá do campo da Moda”, explica a diretora do evento; com efeito, nos últimos 3 anos assiste-se a uma aceleração da passagem dos conceitos de Moda para a Arquitetura, Saúde, Turismo, e Educação, fruto de uma coligação de novos líderes regionais. Trabalhando colaborativamente entre si, o evento resulta de um espírito de comunidade que abraça o país e a península. “É com muito orgulho que acompanho este processo desde o seu início, o qual representa uma grande aposta dos autarcas da grande região Beira-Castela”, explica o autarca, o qual refere que só considerou regressar ao território, fruto de uma grande ambição de liderança da região no panorama Ibérico. Foi por via dessa ambição que conseguimos inverter movimentos migratórios para fora da região, e atraindo 2.5 milhões de pessoas. É curioso denotar que neste evento estarão 3 grandes empresários com origens na região, e que regressam passados 20 anos atraídos pela nova dinâmica e movidos por um sentido de retribuição pelas origens. Os mesmos criaram marcas nascidas na região e com um pendor de sustentabilidade social e económica, fortemente alavancadas em tecnologia, o que lhes permitiu serem grandes marcas e líderes internacionais. Tudo isto, na mesma altura em que tanto a região como Portugal se podem congratular por estar na linha da frente dos objetivos de desenvolvimento sustentável, uma realidade que começou a ganhar forma há 10 anos atrás, quando foram lançadas as primeiras pedras no Hackathon da ModaLisboa Awake, em março de 2020.”

CONSUMO 

"A mudança no consumo da Moda precisa envolver um resgate às origens; a educação é a estratégia para despertar a Moda para a criação de uma ecologia colaborativa, onde a busca pela felicidade é o equilíbrio".

Diogo, Vanda, Ana e Lívia juntaram-se para apresentar um plano pedagógico a introduzir nas escolas, que pretende encorajar o consumo responsável perto das gerações mais jovens. Começaram por encaminhar o foco não para a mudança de padrões de comportamento, mas sim para alterações no sistema capitalista, invertendo o habitual ciclo de responsabilidade. O regresso à educação e à ecologia seria então o novo ponto de partida, na tentativa de criar novos moldes de um comportamento tão enraizado (e normalizado) na cultura moderna. O momento da Revolução Industrial trouxe consigo transformações inéditas; falamos de grandes avanços socioeconómicos, mas também de um novo “gene” que não tem parado de evoluir ao lado do ser humano: o gene do consumo. 200 anos mais tarde, e o ato de comprar um vestido novo dispara uma boa dose de serotonina para o nosso sistema; mas acontece que temos ido beber à fonte errada.

Inspirados pela Declaração da Independência dos Estados Unidos, que defende o direito dos seres humanos sobre a liberdade, a vida e a procura da felicidade, o grupo recuperou o conceito da procura pela felicidade e bem-estar, como uma colaboração positiva entre os seres humanos e o planeta: Ecologia “Coolaborativa”.

“Os kits de Ecologia Coolaborativa seriam oferecidos às escolas de ensino primário e secundário de forma a poderem ser trabalhados pelos professores, no âmbito da educação e cidadania. Apercebemo-nos de que já existem conteúdos educativos para o consumo nos programas das escolas, por isso, aquilo que propomos é o aproveitamento do que já existe no terreno, oferecendo materiais que possam ser utilizados no contexto da sala de aula.”

Os estudantes, enquanto recetores desta nova abordagem, seriam também motores de replicação de ideias, munidos de grandes ferramentas de comunicação como a social media (Tik Tok, memes), onde poderiam partilhar a sua caminhada ecológica. No entanto, não podemos deixar de notar como as gerações jovens atuais podem também ser fornecedores de ideias e conhecimento; falamos atualmente das GenZ e Alpha, detentores de opiniões fortes e uma grande consciência social e ambiental, que podem e muito contribuir para ciclos e contraciclos, onde novos e mais velhos ensinam e aprendem, podendo assim elevar ao máximo o conceito de “Ecologia Coolaborativa”.

Promover a relação com a Natureza de forma prática é outro dos grandes objetivos deste plano, dada a intrínseca relação entre a sobrevivência da biosfera e do ser humano. Para tal, dentro de cada kit os alunos poderão também encontrar uma semente para plantar, ficando ao cargo de cada um zelar pelo seu novo “parceiro”. Num plano maior que aponta para o nascimento de comunidades nacionais e mundiais, os resultados deste programa seriam publicados numa plataforma digital, para medir a pegada ecológica de cada escola. De forma a adaptar o programa a cada região do país, a colaboração revela-se a chave para um kit mais consciente e personalizado, partindo então depois para o resto do mundo, onde poderia ser replicado.

PRODUÇÃO

"A produção de Moda deve ser regenerativa, e não predadora, sendo esta a origem de toda a cadeia e igualmente responsável, por dar um mote de mudança para novas formas de produção mais sustentáveis, obstante na criação de experiências mais humanas e descentralizadas, para a descoberta de novas oportunidades".

Ao terceiro grupo, constituído por Joana, Inês, Rita e João, foi atribuído o pilar da Produção. A equipa quis estreitar relações entre o consumidor final e todos os que intervêm na construção de uma peça de vestuário, mas também pensar sobre a produção enquanto promotora da sustentabilidade social, da transparência, da desmistificação das raízes da produção e ainda como elemento que se adapta à mudança de paradigmas.

Idealizaram então uma app capaz de oferecer suporte (e transparência) na criação e consequente produção de vestuário feito à medida e on demand. O cliente teria acesso a uma vasta base de dados composta por designers de moda nacionais, fornecedores de desperdícios têxteis utilizados para a confeção das peças e, por fim, uma lista de profissionais e serviços perto da sua localização, que serão capazes de ajudar na criação da peça. Desta forma, o cliente aproxima-se do processo de criação e dos seus intervenientes, ao mesmo tempo em que constrói um pensamento positivo sobre o que significa produzir de forma responsável.

Quando pensamos em território nacional, é inevitável sentir como esta aplicação carrega um grande potencial; Portugal é um país feito de makers de todas as escalas e naturezas, desde as grandes linhas de montagem, passando pelos pequenos negócios, até às avós que fazem uma camisola de malha de série única. Bem sabemos que as grandes produções estão asseguradas, mas nós, enquanto consumidores informados e conscientes, teríamos aqui a oportunidade de tomar controlo sobre o que significa comprar uma nova peça de vestuário. E tudo isto, em território nacional. O fenómeno da descentralização aconteceria no prédio do lado, porque a nossa vizinha desenvolvia agora moldes on demand, ao mesmo tempo, uma fábrica forneceria tecidos de deadstock para essas mesmas pequenas encomendas. Perguntas antes ignoradas, saltam para a linha da frente e tornam-se bandeiras desta forma de consumir: “quem fez a minha peça? quem a desenhou? qual é a origem do tecido?”...tudo isto teria uma resposta a olho nu. E de repente nascem mil e um pequenos polos de produção horizontal e local, que não só combatem a overproduction, como também contribuem para a mudança de paradigmas, transparência da indústria e fomento de uma crescente economia de partilha.

“Procurámos regressar à raiz da produção, do DIY, e transformá-la numa experiência mais luxuriosa e cool; só assim é que poderemos influenciar as restantes camadas a atingir este tipo de atitudes. Ao nível de modelo de negócio, parte do dinheiro gerado pelo projeto seria investido na capacitação de comunidades locais; sabemos que originalmente o target é o mercado de luxo, mas a ideia passa por chegar às outras camadas da sociedade, promovendo uma economia de partilha mais democratizada.”

CONCLUSÕES

Portugal reúne as mais diversas características e aptidões para se reinventar em direção a um futuro na Moda mais sustentável. As três utopias idealizadas mostraram que temos ferramentas para elevar o que já existe, mas também o que ficou para trás. O Património mostra-nos quem somos e, em momentos de saturação, o regresso às origens permite-nos repensar o futuro e encontrar novos espaços para o desenvolver. Portugal está repleto desses lugares, prontos a serem resgatados. Portugal precisa de explorar e encontrar novos centros dentro de si.

O consumo, enquanto ato de irresponsabilidade ambiental, precisa de ser transportado para as escolas, núcleos de desenvolvimento do ser humano. É preciso educar para a relação entre o nosso bem-estar e o equilíbrio do planeta Terra e começar cedo é importante, perto das gerações mais jovens. O entendimento desta relação permitirá uma reorganização inconsciente (mas consciente) do que é verdadeiramente essencial ao ser humano. A colaboração é o motor principal e as redes sociais jogam a favor da construção de um networking de grande alcance.

A Produção e criação de vestuário é um processo que pode chegar mais perto das pessoas. Esta aproximação permitirá um maior entendimento sobre o impacto da indústria da Moda no meio ambiente. É preciso colocar as perguntas certas, conhecer a origem dos produtos que consumimos e compactuar com sistemas que nos “obrigam” a procurar mais perto por soluções.

A tecnologia, assume o efeito guarda-chuva e alberga os restantes pilares dentro de si, manifestando-se como o derradeiro parceiro do futuro da Moda: "A tecnologia na Moda, deve servir acima de tudo a biosfera e a realização ética do ser humano; a digitalização na Moda deve considerar as necessidades da sustentabilidade e da biosfera e facilitar um diálogo com todos os atores relevantes e a transformação da indústria, com vista ao tratamento ético dos humanos na cadeia de valor e consumidores."

A colaboração foi a chave e pensamento e consideração dos desafios do presente como sementes para as oportunidades que o futuro nos poderá oferecer.

Testemunhámos, com este primeiro passo de ideação, um movimento inspirador de pessoas e ideias para o futuro. Os princípios para a mudança foram refletidos.

O Futuro é agora e esperamos contribuir para que esta semente gere diversos frutos para o que se avizinha para a indústria de moda nacional nos meses e anos vindouros. Num movimento de mudança positiva, colaborativa e responsável para com as pessoas e o meio-ambiente, gerando valor para a sociedade e impactando a economia.